A Hollywood Nordestina e os mistérios do Lajedo do Pai Mateus

No Cariri paraibano, onde a paisagem seca desenha o horizonte e o céu parece mais próximo da terra, Cabaceiras brilha com uma força surpreendente. O município, que ostenta o título de cidade com o menor índice pluviométrico do Brasil, é também um dos maiores polos de audiovisual do Nordeste — um verdadeiro cenário a céu aberto, apelidado, com justiça, de Hollywood Nordestina (ou Roliúde, para os íntimos).

O famoso letreiro da Roliúde Nordestina

Foi ali que nasceram clássicos como O Auto da Compadecida e, mais recentemente, a série Maria do Cangaço, estrelada por Isis Valverde. No dia da nossa visita, o centrinho fervilhava com turistas e curiosos em torno do antigo mercado municipal, agora transformado em mercado cenográfico da nova produção. A cidade respira arte e tem orgulho de ser palco.

Personagens dos filmes estão sempre pela cidade que respira cinema

Mas Cabaceiras vai além do cinema. A pouco mais de 25 km do centro, uma estrada de terra recortada por árvores secas, pedregulhos e cactos leva ao Lajedo do Pai Mateus, um dos cenários geológicos mais fascinantes do Brasil.

São cerca de 1,5 km² de formações graníticas arredondadas, muitas delas em perfeito equilíbrio, como se tivessem sido colocadas ali por mãos invisíveis. A aparência é tão surreal que alimenta lendas sobre extraterrestres, monges encantados e energias místicas. Mas o que se vê é real — e impressionante.

As rochas gigantes lembram bangalôs naturais. Algumas parecem mesmo pequenas casas sertanejas moldadas pelo tempo e pelo vento. O local é especialmente impactante no pôr do sol, quando os blocos de granito ganham tons dourados e rosados. Entre essas pedras, a vegetação resiste com força e beleza: mandacarus, xiquexiques e outras espécies de cactos nascem em fendas quase impossíveis, como se brotassem da própria rocha. É a Caatinga em sua forma mais pura e simbólica.

As impressionantes "Sacas de Lã" que foram moldadas pela ação do vento
As impressionantes “Sacas de Lã” que foram moldadas pela ação do vento

Embora muita gente associe Cabaceiras ao Sertão, o município pertence oficialmente à microrregião do Cariri. A confusão é comum, mas há quem, por respeito à identidade local, prefira manter essa distinção viva. E ela faz sentido: enquanto o Sertão remete ao semiárido mais extremo, o Cariri se define também por seu relevo peculiar, sua cultura própria e uma espiritualidade que brota até da pedra.

Nossa ida ao Lajedo foi com o grupo de caminhadas Vem de Andada, que partiu do Recife em uma expedição até o Hotel Fazenda Pai Mateus, estrutura que oferece conforto, gastronomia regional e acesso direto à área protegida. A visita ao lajedo só pode ser feita com o acompanhamento de um guia credenciado, que compartilha informações sobre a geologia local, histórias do povo e mitos da região.

Na entrada do Hotel Fazenda Pai Mateus

Nosso guia foi Gerson Lima — uma figura carismática que mistura sua própria trajetória com os causos que coleciona. Em um deles, relembra o dia em que um drone usado na filmagem de um longa-metragem sobrevoou uma igreja e causou correria entre fiéis que pensaram estar diante de um disco voador.

Mais do que um guia, Gerson é um contador de histórias e um defensor da conexão entre o homem e a natureza. Antes de encerrar o passeio, ele convida todos a silenciar. Só então se percebe que, naquele pedaço do Cariri, o vento também parece ter uma história para contar.


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